Estudos sobre dor


O que há de errado com os modelos animais

01/08/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Nas últimas décadas grandes avanços foram feitos na compreensão dos mecanismos moleculares e celulares por trás da dor. Mas esse conhecimento não foi capaz de gerar novas drogas e terapias clínicas contra a dor crônica.


De acordo com Jeffrey Mogil, professor de Genética da Dor, da Universidade McGill, de Montreal (Canadá), as limitações dos modelos animais utilizados para a pesquisa sobre a dor são o principal fator que leva a essa falta de articulação entre ciência básica e aplicação clínica.
Os estudos de ciência básica sobre a dor, segundo ele, baseiam-se geralmente nas medições de respostas reflexas provocadas por lesões inflamatórias ou neuropáticas artificiais, enquanto a dor crônica em humanos tem características mais espontâneas e componentes cognitivos e emocionais importantes que não são considerados pelos modelos.
Outra limitação importante dos modelos animais convencionais, afirma, é que eles estão desconectados da epidemiologia clínica da dor em humanos. Para Mogil, embora sejam baratos, simples e tenham resultados rápidos, os modelos convencionais, por serem muito menos complexos do que deveriam, têm confiabilidade limitada e relevância clínica questionável.
Em seu laboratório, o cientista tem desenvolvido modelos animais para dor com uma abordagem mais rigorosa, baseada na análise de comportamentos espontâneos dos animais a partir de imagens de vídeo de suas expressões faciais.
Mogil participou, no dia 14 de julho, do 19º Workshop Temático Biologia Celular e Molecular da Dor e Analgesia, promovido pelo Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP –, no Instituto Butantan, em São Paulo.

Agência FAPESP – O seu laboratório tem se esforçado para desenvolver novos modelos animais para o estudo da dor. Quais são as limitações dos modelos atuais?
Jeffrey Mogil – Normalmente, quando fazemos pesquisas sobre a dor, trabalhamos com um subconjunto muito limitado de roedores. Lidamos quase sempre com jovens camundongos e ratos e não com animais mais velhos. No entanto, as pessoas mais velhas é que em geral são os pacientes de dor crônica. Essa é apenas a primeira limitação.
Agência FAPESP – Quais são as outras?
Mogil – Estamos fazendo as experiências quase que exclusivamente com ratos e camundongos machos, quando as mulheres correspondem a ampla maioria, de até 70%, dos pacientes de dor crônica. Assim, usamos um rato macho de oito semanas para modelar a dor crônica de uma mulher de 55 anos, por exemplo. A distância é muito grande.
Agência FAPESP – A ciência básica, nesse caso, está distante demais da epidemiologia?
Mogil – Sim. Mas os problemas não param por aí. Realizamos pesquisas com uma só linhagem de ratos e camundongos, quando sabemos que fatores genéticos fazem grande diferença para quem tem distúrbios de dor crônica, assim como influenciam na intensidade da dor. Sabemos que temos respostas completamente diferentes quando testamos a dor em distintas linhagens de camundongos ou ratos. Mas tudo isso é completamente ignorado pela grande maioria dos pesquisadores de dor, na tentativa de fazer seus experimentos da maneira mais simples, mais rápida e mais barata possível.
Agência FAPESP – Podemos dizer então que usar só jovens animais machos da mesma linhagem é o grande fator limitante dos modelos animais de dor?
Mogil – Esse é um grande problema. Mas acho que um problema mais grave ainda é que todos nós ainda continuamos a utilizar modelos para produzir e medir dor que não se parecem, de maneira alguma, com a dor crônica.
Agência FAPESP – Por que eles continuam a ser usados se são tão distantes assim da dor crônica real? 
Mogil – Basicamente porque achamos que eles estão próximos o bastante. Eles têm algumas características de dor crônica, eles medem sintomas que alguns pacientes de dor crônica possuem – embora outros não possuam – e por isso achamos que é o suficiente. Achamos que provavelmente estamos próximos o bastante e que esses modelos funcionam muito bem, no sentido de que conseguimos utilizá-los de maneira muito rápida e muito barata.
Agência FAPESP – O senhor defende que não é o bastante ser barato e rápido? 
Mogil – Claro, porque não é parecido o suficiente com a dor crônica humana. Poderíamos até dizer que estaria tudo bem mesmo, contanto que estivéssemos nos saindo bem, com esses modelos, para produzir novas drogas para dor. Se a pesquisa estivesse indo muito bem, se a ciência básica dessa maneira estivesse levando à produção de novas drogas e terapias nas clínicas, eu poderia dizer com toda a confiança que não há problema algum em utilizar esses modelos, pois estariam funcionando. O problema é que simplesmente não estamos desenvolvendo novas drogas para dor.
Agência FAPESP – As pesquisas sobre dor não têm promovido avanços importantes? 
Mogil – Há muito poucas drogas que foram desenvolvidas nos últimos 20 anos, mesmo com uma explosão de investimentos e com um aumento expressivo do número de cientistas envolvidos com essas pesquisas. De cabeça, consigo lembrar apenas do Prialt desenvolvido a partir de pesquisas desse tipo. Então acho que já deve estar na hora de dar um passo para trás e dizer: está bem, talvez haja de fato alguma coisa errada e não estamos fazendo as coisas da melhor maneira.
Agência FAPESP – Por isso o senhor está trabalhando em modelos alternativos? 
Mogil – O mais grave é que essa estagnação não ocorre porque há poucas pessoas, como eu, aparecendo com modelos alternativos. O problema é fazer com que essas alternativas sejam adotadas, porque de fato elas tornam a pesquisa mais lenta. Se todo mundo fizer os experimentos do jeito que eu acho que deveriam fazê-los – com múltiplas linhagens de animais mais velhos de ambos os sexos, utilizando medições mais complexas e ensaios mais completos, de fato a pesquisa iria avançar mais devagar. E ninguém quer fazer isso. O problema é que essa pesquisa tão rápida que estamos fazendo agora está simplesmente levando às respostas erradas.
Agência FAPESP – O senhor sugere que seria positivo desacelerar as pesquisas? 
Mogil – Talvez a pesquisa mais lenta levasse às respostas corretas. Então, seria válido desacelerar. Sim, eu acho que é preciso dar um passo para trás, para que possamos dar dois passos para frente. Mas é difícil convencer os colegas a isso.
Agência FAPESP – Por quê? 
Mogil – Porque se pensa da seguinte maneira: “Está bem, vou começar a fazer de uma maneira mais lenta, enquanto todos os meus competidores continuam fazendo da maneira mais rápida”. Porque fazer da maneira mais rápida não impede de publicar artigos, ao contrário. Mas tenho razões para acreditar que essas publicações não estão levando a lugar algum. Acho que estamos trabalhando em uma pequena bolha, que está separada da realidade clínica de fato.

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